• Cristina Dalla Nora

Experiência de vida x Psicólogo capacitado


Há algum tempo vi um vídeo no canal Parafernalha, do ator Silvio Matos em que interpreta Fernando. No vídeo Relacionamentos, o personagem critica os jovens de 20 anos, que dão conselhos sobre relacionamentos, dizendo que não estão aptos para tal tarefa. E completa que ele tem duas ex-mulheres, três filhos, que "já limpei muita bunda de criança, já levei mijada na cara de bebê...". Acredito que o vídeo não esteja mais no ar.

Diante disso (com pequenas diferenças, sim), muitos se perguntam: “Nesse caso, como que você, com 30 e poucos anos, se diz especialista em terapia conjugal e familiar?" E não só eu, tantos outros psicólogos jovens, que lidam diariamente com os relacionamentos e vivências dos seus clientes.

Sim, sou especialista em terapia conjugal e familiar. E não, necessariamente, experiente em relacionamentos conjugais e familiares. Considero que a experiência de vida pode até ajudar o psicólogo ter êxito em suas intervenções, mas isso não é o suficiente e, muito menos, o necessário.

Na faculdade, na pós-graduação, nas formações… Estuda-se muito sobre teorias e técnicas com décadas de existência e que fazem parte da Ciência da Psicologia. Aprende-se sobre comunicação e suas relações, assim como comportamentos e suas expectativas. Estudos de casos e experiências de professores são relatados, analisados e revividos. Estágios supervisionados, uma grande demanda de leitura, interpretação e produção é exigida. A cada caso, várias hipóteses. A cada hipótese, inúmeras co-construções e reelaborações.

O fato é que cada relação que chega ao consultório tem suas características únicas, devido aos indivíduos envolvidos, que também são únicos em sua existência e em suas co-existências. Cada processo terapêutico é construído e co-construído numa relação terapeuta-indivíduo/casal/família.

As soluções são encontradas pelos clientes e nunca pelo psicoterapeuta. Não existe intervenção com sucesso, se os próprios indivíduos envolvidos não agirem como protagonistas. Não adianta ter uma receita de bolo pronta para cada tipo de comportamento ou relação, se diante de nós, temos indivíduos com características, crenças, cultura, valores e limitações únicas e diferentes.

Somos instrumentos dotados de teoria e técnica, ciência, intuição e bom senso, livres de preconceitos e julgamentos no consultório, treinados para ajudar indivíduos a encontrarem soluções para suas relações, de forma ética e imparcial. Nesse caso, a idade para um psicólogo, nem sempre é sinal de experiência e capacidade profissional.

O psicólogo não precisa viver todos os tipos de relações e situações para ter experiência e intervir no processo psicoterapêutico. Precisa saber liderar uma sessão, sentir a hora certa para estimular o confronto, ter habilidade para contornar a situação e ser capaz de perceber as respostas verbais e não-verbais emitidas e traduzi-las, com o objetivo de esclarecer as relações e seus impasses para quem está sentado no lado oposto, estimulando-o a buscar soluções e equilíbrio para os seus relacionamentos, seu bem-estar psicológico, saúde mental e emocional e regulação intra-psíquica.

Imaginem precisar vivenciar todas as situações do mundo para ser um bom psicólogo: casamento, divórcio, re-casamento, homossexualidade, filhos, aborto, enteados, viuvez, câncer, morte, acidentes, reabilitação, cirurgia bariátrica, transtornos de ansiedade, esquizofrenia, bipolaridade…

#CristinaDallaNora #Psicologia #Reflexão #Comportamento

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