• Cristina Dalla Nora

Achados: Freud e o Carnaval


Olá pessoal!!

Estava organizando uns textos que tenho guardado da época da faculdade e encontrei um que gostaria de compartilhar com todos.

É uma crônica escrita pelo Moacyr Scliar. Procurei bastante na internet o local original da publicação, que tenho como informação ser na Zero Hora, jornal de circulação no Rio Grande do Sul, do Grupo RBS, o qual Scliar era colunista; mas não encontrei.

É datada de 08 de fevereiro de 1997, então, pode ser por isso que não encontrei a referência original, já que o site da ZH tem referência de seu início em 2000.

De qualquer forma, aproveitem o texto!

É uma excelente crônica a respeito do Id, Ego e SuperEgo - de Sigmund Freud!

FREUD e o CARNAVAL

Por Moacyr Scliar (ZH, 08 de fevereiro de 1997)

Segundo Freud, que não era construtor (mas que em algum momento deve ter pensado em fazer uma incorporação a preço de custo para escapar das agruras da psicanálise), a nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes.

No térreo mora um sujeito simples e meio atucanado, chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Estas tarefas fazendo parte da vida cotidiana, Ego até não se queixaria. O pior é ter de conviver com os outros dois moradores.

No andar superior, decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral, vive um irascível senhor, chamado Superego. Aposentado – aos pregadores de moral não resta muito a fazer em nosso mundo –. Superego dedica todos os esforços a uma única causa: controlar o pobre Ego. Quando Ego se lembra de alguma piada boa e ri, ou quando o Ego se atreve a cantar um sambinha. Superego bate no chão com o cetro que carrega sempre exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, adverte: não quer festinhas no domicílio.

No porão, sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id. Id não tem modos, não tem cultura e na verdade mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta estas coisas, exige que o Ego mantenha a inconveniente criatura sempre presa. E é o que acontece durante todo o ano.

No Carnaval, porém, Id se solta. Arromba a porta do porão, salta para fora e vai para a folia, arrastando consigo o perplexo Ego que, num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba, bebida, mulheres.

Quando volta para casa, na quarta-feira, a primeira pessoa que Ego vê é o Superego, olhando-o fixo da janela do andar superior. Ele não precisa dizer nada, Ego sabe que errou. Humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão para que o saciado Id retorne a seu reduto, e aí começa a penitência, que durará exatamente um ano.

De vez em quando Ego tem um sonho. Ele sonha que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco, e que, juntos, se divertem a valer – o Superego é inclusive o folião mais animado. Mas isto é, naturalmente, sonho. Parafraseando um provérbio judaico, Carnaval no sonho não é Carnaval, é só sonho. Que se junta a todos os sonhos frustrados de nossa época. Graças a eles, muitas casas foram construídas. E muitos edifícios foram incorporados.

#Freud #Psicologia #CristinaDallaNora #Achados

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