• Cristina Dalla Nora

Filme: Juno (2007) - Vem Pensar PSI em cena


[ pode conter spoiler ]

Juno

O filme “Juno” retrata a trajetória de uma adolescente de 16 anos que enfrenta uma gravidez não planejada após uma única relação sexual com um amigo de escola. Inicialmente, Juno pensa em interromper a gravidez. Contudo, diante do ambiente em que o aborto seria realizado e impactada com as considerações de outra adolescente que protestava contra a prática, acaba por resolver ter o bebê e entregá-lo para adoção. Nos classificados de um jornal, encontra um casal (Vanessa e Mark) que deseja adotar um bebê e, com base na descrição e na foto, decide encontrá-los e combinar os procedimentos para a entrega do bebê. Ao longo da gestação, Juno aproxima-se de Mark, identificando-se com seu estilo de vida. Além disso, precisa confrontar-se com o fim do casamento do casal que fora tão idealizado por ela, o que lhe provoca questionamentos sobre realizar a adoção como planejara e acerca das possibilidades de relacionamentos amorosos e conjugais felizes.

Fonte imagem: Google, Divulgação

Diversos aspectos do filme chamam a atenção e merecem um olhar sob o ponto de vista sistêmico. Juno pertence a uma família composta por ela, seu pai, sua madrasta e uma irmã mais nova. Ela conta que seus pais se separaram quando ela era pequena, sendo que sua mãe se mudou para outro estado, onde casou e teve mais três filhos. A cada ano, ela lhe mandava um cactos, o que é narrado pela personagem com ironia, já que ela se percebia abandonada pela mãe. Sua rede de relações pessoais próximas contava ainda com uma amiga (Leah) e com Paulie Bleeker (um grande amigo, de quem engravidara e que, ao longo do filme, é percebido por ela como escolha romântica).

É interessante observar que Juno percebe-se como uma adolescente proativa e independente, que toma decisões por conta própria. Isso aparece desde o momento em que descreve sua relação sexual com Paulie, o que considera ter sido uma decisão e escolha unicamente sua. Fica ainda mais nítido quando se trata de como ela lidou com a gravidez. Após ter feito o teste, procurou sua amiga Leah para solicitar apoio, mas manifestou o firme propósito do aborto, já tendo inclusive escolhido a clínica a que iria recorrer. Amedrontada pelo ambiente que encontrou, decidiu-se imediatamente pela entrega da criança em adoção e, ainda com o apoio da amiga, iniciou a busca por um casal.

Nesse ponto cabe ressaltar um aspecto referente à idealização que Juno fazia acerca da adoção. Quando inicia as buscas no jornal, tem em mente que estilo de descrição familiar consideraria adequada para propiciar a criação de seu bebê, o que incluía um formato de casamento e personalidades específicas de cada membro do casal. Necessitaria ser o primeiro filho da família adotiva, para que ela pudesse ver seu ato, ainda, como gesto altruísta de auxílio a um casal que não pudesse engravidar. Essa idealização de família, ao longo da gestação, necessitou ser revista pela personagem, que passou a colocar em perspectiva seus valores ao se deparar com o fato de que a vida do casal escolhido não seria aquela sonhada por ela.

Somente após ter escolhido o casal e ter feito o contato com Mark, Vanessa e a sua advogada é que Juno decide revelar à família sua condição, o que também é feito por meio de uma descrição completa de todos os procedimentos que já havia adotado para resolver o problema da gravidez da forma mais indolor possível. Na reação de seus responsáveis, embora tenha havido indignação e responsabilização da adolescente pela gravidez indesejada, observa-se, desde o início, um apoio tácito referente ao fato de que aquela criança não deveria ser parte daquela família, não deveria ser criada por Juno. A madrasta chega a sugerir, no momento da revelação, que ela optasse pelo aborto, já que a adoção não seria a forma mais rápida e fácil de resolver a situação. Em apenas uma cena, a madrasta mostra uma valorização das competências de Juno, quando a técnica que realizava a ultrassonografia manifesta-se totalmente favorável a que uma pessoa como Juno não criasse uma criança.

O não dito da família de que todos estavam de acordo com a resolução de Juno propiciou um ambiente apoiador para que ela não entrasse em contato, ao longo do filme, com a possibilidade de, realmente, tornar-se mãe. Ao longo da gestação, observa-se que Juno mantém sua rotina de adolescente e estudante, vivenciando a gravidez como estado passageiro e incômodo que, em breve, teria um fim. Essa sua postura repercute também em sua relação com Paulie, já que ela o desresponsabiliza de quaisquer participações na gestação ou de responsabilidades de sua paternidade, pois lhe comunica sobre a gravidez já informando sobre o aborto e depois sobre a adoção, dessa forma, exime Paulie de participar de uma ultrassonografia e não se comunica com ele no momento do parto.

Fonte imagem: Google, Divulgação

Contudo, Juno também percebe algumas perdas que a gravidez promove em sua vida, quando não é convidada por Paulie para ir ao baile de formatura, já no fim de sua gravidez. Nesse ponto do filme, parece que a personagem consegue fazer algum contato com a responsabilidade advinda de estar gestando aquela criança que deseja dar em adoção. Isso porque é também nesse momento que Juno descobre que Mark pretende separar-se de Vanessa. É interessante observar que a entrada de Juno no sistema conjugal de Mark e Vanessa tem influência direta na decisão do casal de se separar. Mark era um homem, cujo estilo de vida despojado e vinculado a interesses tais como música e quadrinhos, incomodava sua esposa. Vanessa convivia com o lado indesejado de Mark empurrando-o para cantos da vida e da casa onde ela não pudesse vê-lo, literalmente. Assim é que Mark possuía um quarto separado na casa em que podia guardar seus objetos e vivenciar esse lado de seu jeito.

Entretanto, Juno identificou-se profundamente com o estilo de Mark e seu interesse fez com que ele se sentisse novamente valorizado e autorizado a viver segundo seus valores. Essa interferência de Juno na forma de Mark enxergar a si mesmo começou a tornar mais claro, para ele, que não mais desejava permanecer na relação conjugal e que, além disso, não desejava ser pai tanto quanto Vanessa almejava a maternidade. Essa disparidade no desejo do casal adotante aparece, inclusive, mais no início da gestação, quando Vanessa planeja a pintura do quarto do bebê e se depara com o desinteresse de Mark, que considera seu empenho e a leitura de livros sobre maternidade como prematuros.

Quando Mark comunica a Juno que ia separar-se de Vanessa, a adolescente fica bastante abalada, pois, como disse à Vanessa logo depois, não queria que o bebê fosse criado por famílias ruins como as da maioria das pessoas. O processo de reflexão que tal circunstância lhe proporciona a leva a compreender que não haveria a possibilidade de controlar o futuro da criança que desejava dar e ela acaba por entregar o filho à Vanessa, ainda que ela não estivesse mais casada. Além disso, ela se abre para a possibilidade de um romance publicamente assumido com Paulie, o que antes também não podia admitir, pela idealização que fazia de um relacionamento amoroso. Ela se deu conta de que a forma como se sentia na relação com o amigo era suficiente para permitir-se vivê-la de um modo diferenciado e continuar sua trajetória após a saída do bebê de sua vida.

Finalmente, a adoção é realizada, sem que Juno ou Paulie quisessem ver o bebê. Vanessa, por sua vez, sente-se gratificada pela realização de seu anseio de ser mãe. O modo como a adoção retratada no filme se processou, com Juno recebendo apoio de seus cuidadores para não permanecer com a criança e a disponibilidade de Vanessa em se tornar mãe propiciou um contexto adequado para que Juno vivenciasse o ato de adoção como algo positivo, tanto para si mesma, quanto para seus familiares, namorado e para a família adotante.

Ficha técnica:

Ano de lançamento: 2007

Classificação etária: 10 anos

Tempo: 1h 31min

Direção: Jason Reitman

Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner e mais

Gênero: Drama

Origem: Estados Unidos

Premiação: OSCAR Melhor Roteiro Original

Sinopse oficial: Quando a adolescente Juno McGuff engravida de seu melhor amigo, ela decide ter o bebê e entregá-lo para adoção. Ela escolhe um roqueiro fracassado e sua esposa dedicada para serem os pais adotivos da criança.

Avaliação Vem Pensar PSI:

Contexto Adoção no Brasil

O contexto da adoção apresentado no filme é diferente do que vivemos no Brasil. Pode-se observar, a respeito da origem da criança, como uma criança que não foi planejada/desejada e neste ponto é apresentada uma das razões psicoafetivas para a decisão pela adoção, uma vez que a mãe é adolescente e não tem condições psicológicas e financeiras, do ponto de vista dela própria e de seus familiares, para cuidar da criança.

No Brasil existem dois tipos de adoção: a de bebês e a tardia. No caso do filme, encaixaria na adoção de bebês, ou seja, logo após o nascimento, a criança vai para a casa da família adotante, que nas estatísticas é a adoção de preferência no país, porém, a mais difícil e demorada de acontecer devido a grande demanda de famílias solicitantes e a quantidade de bebês nascidos que atendem ao perfil da família.

Um aspecto importante de ser destacado é o luto que a família adotante sofre pelo filho biológico que não pode ser gerado, por exemplo, e pela idealização do filho perfeito no momento da adoção. E, também, por que não falar e pensar no luto que a família que entregou o filho para adoção possa a vir sofrer também? Outro problema que assistimos é que uma vez não alcançadas as expectativas em relação à criança adotada, as famílias se acham no direito de fazer a devolução da criança, como se fosse uma mera mercadoria.

No caso do filme, a família adotante não passou pelo programa de adoção como existe no Brasil, em que é feito um cadastro e submetida a um processo com seis etapas, que são: habilitação, apresentação, estágio de convivência, acolhimento, autuação da adoção e sentença que, por sua vez, é irrevogável. No filme, a adoção feita é uma forma não muito comum no Brasil, uma adoção arranjada que era muito utilizada antigamente, mas que ainda existe. Porém, o ideal é passar por esse cadastro e processo, principalmente por causa dos vínculos criados entre a família e a criança, já que a partir da adoção a criança não terá mais contato com a família biológica.

*essa análise foi adaptada da análise construída juntamente com colegas do curso de Especialização em Terapia Conjugal e Familiar: Ana Paula e Aline.

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